Lévinas e o reino humano: a ética como filosofia primeira e responsabilidade pelo outro
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Universidade Católica do Salvador
Este resumo retoma os pontos da dissertação de conclusão do curso de Bacharelado em Filosofia, 2002. Trata-se de uma síntese de cunho afirmativo, que demonstra como Emmanuel Lévinas estabelece a Ética como Filosofia Primeira e a Responsabilidade pelo Outro. Por acreditarmos que o papel fundamental da filosofia é buscar um sentido último para a existência humana, é que esta pesquisa seguiu a via ética, como relação onde as diferenças são respeitadas e se consagram umas às outras – relação ética, em que a justiça é afirmada no encontro do homem com
o outro homem. Analisando, sobretudo, as obras de Lévinas Totalidade e Infinito (sem dúvida esta é uma das suas obras mais importantes, tendo influenciado a Filosofia da Libertação na América Latina, em especial Enrique Dussel, Osvaldo Ardiles, Juan Carlos Scannone e outros) e De outro modo que ser, o más Allá de la esencia, O filósofo judeu Emmanuel Lévinas introduziu, na contemporaneidade, um dos mais profundos bombardeios aos alicerces do pensamento ocidental, até então nunca visto em sua caminhada histórica. A filosofia levinasiana oportuniza uma reflexão voltada para o âmago da questão ética, não a partir do ângulo do ditador, mas da realidade do esquecido, focalizando o homem desprezado e marginalizado, não a partir do eu que se considera centro de tudo, mas a partir do outro que permanece outro, embora em relação com o eu. É por isso que o encontro com a obra deste pensador delineia uma aventura espiritual para além do intelecto.
O pensamento ético de Lévinas não nasce simplesmente de um esforço da razão em busca de um pensamento alternativo. É um pensamento enraizado na sua própria experiência de vida; isto porque Lévinas admite-se um pensador judeu, ou seja, um judeu que faz filosofia sem, em nenhum momento, negar a crença nascida da formação e experiência pré-filosoficas originárias. Ele nos remete à atmosfera semítica, na qual o sentido de encarnação e de compromisso é uma característica
dessa tradição. Daí a preocupação do autor ser de caráter global, e não apenas antropológico – em que se localizam as questões da ontologia, da existência, do tempo, da verdade, da significação, e, mais significativamente, da questão da ética da justiça e da paz, do bem. As incursões de Lévinas nos textos do Tora, do Talmude e da tradição rabínica, aos quais ele se refere como “versículo”, não são utilizados ou analisados como premissa não justiçada, não traduzida: ele traduz e aceita as sugestões de uma pensamento tematicamente não filosófico, mas
que pode ser racionalmente justificado, na medida que o “versículo” permita a análise fenomenológica. Será que a ética já foi levada a sério pela reflexão filosófica? A recente reflexão sobre a temática dos Direitos Humanos terá validado e norteado as mentes e os responsáveis pela mudança dos padrões morais, para relativizar a fórmula de que o forte impõe suas regras aos mais fracos? Não será uma tarefa maior e urgente da reflexão filosófico-ética repensar a realidade dos homens
vencidos na história cotidiana do mundo: os perseguidos, explorados, oprimidos, os pobres e estrangeiros, todos os sem voz, diante dos quais a totalidade dos filósofos vedou os olhos? Não terá a filosofia se alienado em prol dos interesses dos prepotentes? Partindo destes problemas, Emmanuel Lévinas vai repensar toda a questão ética, de forma que se leve em conta o outro a partir do conceito de rosto (face). O pensamento levinasiano abre a perspectiva de uma nova humanidade, que se reinicia a partir de um outro lugar. E este lugar é um lugar ético, é o útero da nova humanidade. Este caminho é um novo renascimento do homem, do eu, da filosofia, da história. É o estabelecimento da Ética como filosofia primeira, que deve ser o primeiro ponto de
reflexão filosófica no lugar da ontologia, em que a totalidade engole o que o ser humano tem de
principal, a sua diferença, diferença esta que é sua glória. O que importa, neste momento, é saber o
que me cabe realizar como humano, na relação com o outro como outro. É necessário fazer a experiência da majestade do humano antes de qualquer leitura seja feita sobre o homem. Aqui a pergunta fundamental não é mais ser ou não ser ou porque há algo em vez de nada. A questão incontestável é: por que há mal em vez de bem? Nossa pesquisa, dissertação monográfica, seguiu basicamente o método dogmático de Goldschmidt. Tentamos dar à nossa dissertação uma forma poética, com o objetivo de facilitar a compleição do pensamento do autor. Desta forma, a pesquisa foi dividida em quatro partes da seguinte forma:
1) O ser em sua obra de ser: Lévinas começa por defender a tese de que a relação transcendente ou metafísica precede a ontologia, pois esta é região da ética. É uma relação metafísica, não no seu sentido comum, mas relação metafísica ou transcendente na qual os termos em relação a eu e ao outro se mantêm separados, ao mesmo tempo, em relação com a linguagem do frente a frente, sem
que se busque a totalização. 2) Quebra da totalidade: O rosto do outro causa um desconcerto, um trauma na razão. É aqui que reside a maravilha da vida: que cada um seja um. Nesta parte, encontramos a compreensão do outro metafisicamente desejado e a manifestação da linguagem do frente a frente, já que a Ética leva o eu
a ultrapassar a dimensão anônima e não significativa do ser. 3) A auto-revelação do outro: Neste momento, analisamos como a epifania do rosto do outro é a
abertura para um novo mundo, para uma redenção realizando-se aqui no nosso mundo. O outro, na sua concretude, na sua revelação – quer seja ele o pobre, o órfão, a viúva, o doente, o fraco, o sem cultura, o indigente – ele é hóspede, é olhar, é palavra, é mestre, mandamento, é o bem. Logo, ele não é apenas o necessitado, mas meu senhor, ele vem do alto, o seu grito e interpelação é o verdadeiro clamor divino. 4) A responsabilidade por outrem: Buscamos demonstrar aqui o nascimento de um novo mundo, o renascimento da subjetividade a partir do outro, o qual faz emergir a responsabilidade por ele. O eu é responsável pelo outro, inclusive por todos os outros e até pela irresponsabilidade do outro, por todos os crimes que o outro comete.
