Notas sobre a nupcialidade: uma nova abordagem do matrimônio e da família
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Universidade Catolica de Salvador
O conceito de nupcialidade tem uma história longa como a civilização judaico-cristã, sendo usado já no Antigo Testamento para indicar, não somente a relação nupcial entre um homem e uma mulher, mas, por analogia, também a Aliança entre Deus Criador e o povo eleito nas diversas etapas de sua história. Nestes últimos anos, o conceito foi reelaborado por Scola3 (1998; 2000), a partir das catequeses do Papa João Paulo II sobre o amor humano4. Scola apresenta a nupcialidade como sendo
de extrema fecundidade para falar do amor humano, nas diversas expressões e conexões em que se apresenta. Este fenômeno, tão comum e, ao mesmo tempo, tão desgastado, que vai desde “Vênus até o amor perfeito com o qual se amam os três que são o único Deus”5, pode ser compreendido de modo menos óbvio através do conceito de nupcialidade. O conceito foi retomado, em seguida, por outros autores, entre os quais Melina6, Ouellet7, Marengo8, em trabalhos de teologia que vão desde a Antropologia Teológica, à Teologia Moral e à Sacramental. Foi retomado também por Grygiel9 em chave filosófica. Por mistério nupcial entende-se – afirma Scola [...] de um lado a unidade orgânica de diferença sexual, amor (relação objetiva com o outro) e fecundidade, do outro [esta expressão] refere-se objetivamente, em virtude do princípio da analogia, às diversas formas do amor, que caracterizam quer o homem-mulher, em todos os seus derivados (paternidade, maternidade, fraternidade, sororidade, etc.) quer a relação de Deus com o homem no sacramento, na Igreja, em Jesus Cristo, para chegar até à mesma Trindade. 10
O tema foi retomado em diferentes lugares, com a difusão da revista Anthropotes11 e com a tradução em diversas línguas dos dois volumes nos quais ele foi mais amplamente tratado12. O conceito de nupcialidade constitui uma provocação significativa para repensar, sob uma nova luz, a relação entre homem e mulher. Trata-se de um instrumento de análise capaz de descrever, compreender e interpretar expressões importantes de um fenômeno complexo como o amor humano e as suas implicações sociais através do matrimônio e da família, procurando apreender o significado, a orientação, a importância de relacionamentos, de gestos, de vínculos que muitas vezes podem ser vistos de modo parcial e superficial. Ele difundiu-se rapidamente, começando a ser utilizado em vários centros de pesquisa, em campo teológico e filosófico. Na elaboração feita por Scola e no trabalho teológico subseqüente, a nupcialidade está associada ao conceito de mistério. No presente estudo, todavia, é deixada de lado a noção de mistério, para
permanecer no espaço das ciências humanas e, particularmente, da antropologia social. As páginas que seguem nascem da tentativa de ler o conceito de nupcialidade no horizonte das Ciências Humanas. O coração do conceito de nupcialidade é a unidade inseparável de amor, sexualidade e procriação. Aqui reside a originalidade do conceito, que apreende sinteticamente aspectos fundamentais da antropologia, resgatando a unidade que, desde os primórdios da história e até da préhistória, até tempos recentes, constituiu o eixo da relação homem-mulher ao redor da qual estruturaram-se o matrimônio, a família e, como conseqüência disso, relações de cooperação e de solidariedade entre os sexos e entre as gerações.
Na diversidade das formas que historicamente estas realidades assumiram e no meio de contradições que se verificaram, a nupcialidade sempre permaneceu como o núcleo central ao qual se deve atribuir a origem de dinâmicas sociais que desenharam as diversas civilizações. No pólo oposto à nupcialidade situa-se a relação ocasional entre homem-mulher, no exercício de uma sexualidade que muda a natureza dos vínculos inerentes ao relacionamento, reduzindo-os ao mínimo.
