O movimento saciando algumas das fomes
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Universidade Católica do Salvador
A ciência tem aumentado significativamente a expectativa de vida do ser humano. Segundo dados do IBGE, no período de 1980/2001, no Brasil, houve um aumento significativo nessa direção, Contrariamente, a sociedade, ao invés de valorizar esse fato, voltou-se para o aspecto funcional do homem, considerando não eficaz a função produtiva do idoso, afastando-o prematuramente de cargos de responsabilidade. A aposentadoria se apresenta como mudança radical do esquema de vida para os que estavam adaptados, há anos, à rotina do trabalho, com a convivência diária e desempenho de um papel profissional que lhes assegurava companhia, prestígio e poder aquisitivo. Há, ainda, os que não trabalhavam fora de casa, como a maioria das mulheres de gerações passadas, que sofrem com a independência e afastamento dos filhos criados, com a insatisfação sexual proveniente, sobretudo, de uma forte educação repressiva, somando-se a isso a frustração pelo fato de não concretizar o sonho de uma profissão valorizada, atribuindo todas as suas mazelas à velhice. Desencadeiam-se, então, reações adversas: em alguns casos, a mulher resiste à dependência e orgulha-se em fazer pequenos trabalhos domésticos e cuidados pessoais, enfocando na velhice
“dos outros” o aspecto da inutilidade. O homem aceita os limites físicos e admite a hora de desengajar-se. Em outros casos, ambos os sexos caem em extrema depressão, perdendo todo o interesse pelo mundo. Atualmente, vê-se uma tendência do idoso em ganhar novo fôlego para desfrutar a vida, encarando a aposentadoria e a autonomia dos filhos, e até a viuvez como condições libertadoras de compromissos. Todos temem, entretanto, a dependência corporal, a demência e o desamparo – este último, drama mais especifico da velhice pobre, que traz consigo a angústia pela certeza e proximidade da morte, tornando este idoso, muitas vezes, um indivíduo cheio de “fomes”.
