Laboratório de cultura material africana e afro-brasileira: experiências e relatos do semestre 2002.2
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Universidade Católica do Salvador
A disciplina Laboratório de Cultura Material Africana e Afro-Brasileira pertence ao Curso de Museologia da UFBA. E como define a sua ementa, visa dar “noções de cultura material africana e afro-brasileira e suas formas de manifestação e expressão”. Sua necessidade, na referida graduação, nasce da “fome” em desenvolver um estudo mais dirigido sobre a presença e permanência da cultura africana na cultura brasileira. Consiste em atividades que versam sobre arte
e processos culturais, preservação e afirmação deste conteúdo sempre permeado pelo “olhar” técnico museológico, o que ratifica sua relevância no contexto da Universidade e do Curso. Sob a orientação da Professora Dra. Joseania Miranda Freitas e a partir das aulas expositivas, palestras, visitas técnicas, referencial teórico, anotações pessoais, pesquisas extras e postura crítica, foi disponibilizado à equipe um riquíssimo aporte para a construção e articulação do presente relato.
Nossa primeira experiência na disciplina foi uma dinâmica de grupo que objetivou verificar até que ponto a classe conhecia o continente africano. Foi um simples exercício no qual tivemos que elencar nomes de países e cidades da África e grupos étnicos trazidos para o Brasil, apontando ainda as principais características da arte africana. O resultado foi um tanto surpreendente, concluímos que não sabíamos o suficiente sobre a África, ou não tanto quanto julgávamos conhecer. A partir de então, tornamo-nos estudantes “famintos e vorazes” e enveredamos por uma análise mais aprofundada e sem idéias preconcebidas acerca das africanidades.
As palestras permitiram diálogos com autores de textos que nos serviram de referencial bibliográfico. E as atividades, embora nem sempre tivessem relação aparente com a disciplina, nos forneceram diversos pontos de vista, algumas vezes conflitantes, que pautaram questões como multirreferencialidade, desigualdade social e tecnológica, e problemas de aceitação no mercado profissional, como vimos no Colóquio Internacional Construção de Saberes, Construção de
Práticas de (In) formação Profissional, evento promovido pela FACED/UFBA.
Esses temas foram importantes para nos esclarecer a respeito da necessidade de uma maior interdisciplinaridade entre as ciências e uma maior associação ao contexto com o qual lidamos, como pudemos verificar na palestra do Professor Dr. Jacques Ardoino, da Universidade Paris VIII, que tratou de “Cultura e multirreferencialidade”. Ardoino destaca a importância do que se produz, e
não sua fonte, inspiração, origem; o importante não é o que o professor diz, mas o que o aluno fará depois. Na sua visão, no mundo técnico e econômico é importante entender que as informações são ligadas à Antropologia e que a noção de cultura é mais circular e global, mais plural e, talvez, contraditória: não são as coisas que mudam, mas o olhar que damos a elas – assim é que conseguimos transformar o mundo. Ainda, adverte para que a nossa epistemologia é muito cartesiana, e os enunciados científicos são os mesmos, não importa onde e como. O que vai
estabelecer o diferencial é o contexto em que eles serão inseridos, considerando a compreensão das “multirreferencialidades” de cada país, grupo ou região. Deste modo, são necessárias competências próprias a cada disciplina, sendo essencial entender que não podemos abarcar todo o conhecimento existente, contudo devemos ter noções das disciplinas fronteiriças à nossa. Não podemos saber tudo,
mas se não procurarmos esse “saber poliglota”, não conseguiremos usar bem a “máquina” do conhecimento (a internet se encaixa neste quadro).
Em contraposição a Ardoino, detentor de um saber acadêmico e institucionalizado, saindo do âmbito do Colóquio, pudemos dialogar com a Professora Vanda Machado, Doutoranda em Educação, que nos falou de “Cultura popular e afro-brasilidade”; da origem da feijoada nos terreiros e daquela oferecida nas comunidades após um mutirão para construção de uma casa, a título de confraternização; relata também sobre o orixá Ogum e sua “flexibilidade” escondida por traz de sua aparência rígida.
Contrapõe, ainda, a visita técnica ao Terreiro Oxumaré, na Av. Vasco da Gama, em
Salvador, momento que nos proporcionou um contato direto com a religião afro-brasileira, seus costumes, história e conceitos – todos passados pela oralidade e tradição, nem por isso menos relevantes. Ali descobrimos a luta da comunidade por sua afirmação na sociedade e a responsabilidade que envolve o candomblé. Entretanto, reportando-nos ao mesmo Colóquio, a Professora Dra. Vanilda Paiva apontou a necessidade da consciência acerca da “nova era capitalista”, suas implicações no campo educacional e profissional e a necessidade de constante
requalificação; além do processo de transplantação cultural que faz as culturas mudarem no local para onde migraram e se modificarem ao mesmo tempo no sítio de origem. Porém, conclui sua palestra afirmando que “esse país é a maior democracia racial do mundo”. Esta afirmação entra em total contraste com o quadro apresentado pela própria palestrante e com o que nos foi passado pelo Professor Antônio Cosme.
