Desafios para comunicação acústica animal em ambientes com ruído: o que sabemos sobre adaptação em anfíbios?
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Universidade Católica do Salvador
A comunicação acústica em ambientes com ruídos naturais intensos e constantes pode ser
um grande desafio para os animais. Para que interações sociais aconteçam de forma eficiente,
os sinais acústicos passam por pressões seletivas para mudanças tanto em escala evolutiva,
como ecológica. Dessa forma, é esperado que os sinais acústicos emitidos por um animal
tenham fortes relações com as características do ambiente onde eles são produzidos. Essa
premissa tem sido chamada de hipótese de adaptação acústica e ainda é pouco estudada como
um potencial mecanismo de maximização de transmissão de sinais em anfíbios Neotropicais.
Em nosso trabalho nós estudamos o canto de anúncio de uma espécie de anuro que ocupa
riachos da Mata Atlântica brasileira e avaliamos a relação de suas propriedades acústicas com
a intensidade de ruído abiótico (corredeiras) e com a duração de sinais conflitantes e
intermitentes produzidos por heteroespecíficos sincrônicos. Para isso gravamos um total de
54 machos da espécie Crossodactylus caramaschii, utilizando microfones com ajustes de
ganho padronizados para caracterizar a amplitude de ruído de fundo em cada gravação. Nós
utilizamos modelos lineares de efeitos mistos para entender o papel desses efeitos, além do
tamanho do corpo e temperatura do ar sobre as diferenças acústicas entre indivíduos
controlados por localidade (dado às diferenças geográficas nos sinais acústicos dentro da
espécie). Em nossos modelos achamos relações significativas entre amplitude do ruído
abiótico e a duração do canto de anúncio da espécie, sendo que vocalizações mais longas
foram registradas em ambientes com maior amplitude de ruído das corredeiras. A duração
total de sinais heteroespecíficos foi negativamente relacionada com a amplitude espectral dos
cantos de anúncio. Nós sugerimos que o estreitamento da amplitude espectral possa ser uma
estratégia para superar o mascaramento e ampliar a indução auditiva pelos receptores. Nosso
trabalho gera evidências do funcionamento da hipótese de adaptação acústica e traz novas
perspectivas para aumentar nossa compreensão sobre o papel do ambiente na modelação do
comportamento.
